Aliando passado, presente e futuro, blocos de Olinda buscam meios para sobreviver

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Blocos, troças e clubes tradicionais do Carnaval de Olinda colaboram há décadas na perpetuação e preservação dos traços inconfundíveis da história e tradição da folia pernambucana. Ao som do frevo e regado a muito suor durante todo o ano, as agremiações batalham diariamente para levar às ruas uma festa bonita e participativa para todos que vão à cidade-patrimônio, vindo de perto ou de longe, para viver o maior evento popular de rua do mundo.

Em apenas um desfile, os blocos podem gastar até R$ 80 mil em itens como orquestras, passistas, puxadores, clarins, porta-estandarte, fantasias, destaques, fotógrafos e cinegrafistas. Cada orquestra cobra entre R$ 2 mil e R$ 8 mil para tocar no Carnaval olindense. Essa cifra corresponde à alta demanda pelos grupos na época carnavalesca.

Durante a coletiva de apresentação do Carnaval 2018, o prefeito de Olinda, professor Lupércio, ressaltou o cumprimento da promessa de custo zero da festa para os cofres públicos do município. “Iremos honrar a promessa que fizemos em 2017 de fazer o Carnaval só com dinheiro dos patrocinadores, sejam da iniciativa privada ou do Governo do Estado. Faremos uma festa melhor sem precisar mexer nos cofres públicos”. O orçamento previsto para 2018 é de R$ 7 milhões. O dinheiro repassado às agremiações vem deste total.

Autonomia
Há cerca de cinco anos, um grupo de sete jovens da nova geração do Elefante de Olinda se propôs a levantar o clube. O advogado e diretor-financeiro do bloco, Hugo Guedes Alcoforado, de 30 anos, está no clube há quatro anos e, junto a amigos, procurou o pessoal antigo para modernizar sem perder a essência. “Nós auxiliamos o presidente, seu João, que é uma pessoa mais idosa e já não tem aquele gás. Somos uma turma que gosta de Carnaval e se propôs a ajudar o clube”, contou.

Por outro lado, nem só de subvenção da Prefeitura e do Governo sobrevivem financeiramente os blocos. Além do que é angariado através de patrocinadores privados, são organizados ao longo do ano eventos para arrecadar fundos. Entre as principais atividades estão a venda de camisas e prévias com comercialização de bebidas e comidas.

“De dois anos para cá estamos conseguindo fazer muito mais atividades. Para obter mais recursos financeiros e não dependermos somente da Prefeitura, vendemos camisas e copos, conseguimos doações, fazemos bingos e rifas durante o ano, a partir de agosto ou setembro”, afirmou Hugo, que disse que o valor da subvenção da administração municipal não apresentou mudanças na troca de gestão entre Renildo Calheiros (PCdoB) e Lupércio (SD).

“Não teve um aumento. A Prefeitura paga metade perto do Carnaval e demora para pagar o restante”, disse. Ainda de acordo com o diretor financeiro, os valores variam conforme a apresentação. “O Recife paga cerca de R$ 12 mil. A Prefeitura de Olinda paga em torno de R$ 10 mil a cada apresentação. Os valores dependem também do lugar de onde vamos sair, do tamanho da apresentação e do dia, se é a saída oficial ou não”, explicou.

Entre as dificuldades principais, Hugo cita fatores como não saber local exato de saída a poucos dias do Carnaval. O projeto do Elefante é ser independente de dinheiro público nos próximos anos. “Considerando as investidas das duas prefeituras, elas representam aproximadamente 70% do nosso orçamento. Cinco anos atrás eram 100%”, contou Hugo que afirma que a ideia do bloco é precisar cada vez menos da Prefeitura. “Esses pagamentos acabaram viciando os blocos, que sabem que todo ano vai ter aquele dinheiro. Todos têm que procurar mais recursos. A conta acaba não fechando”, criticou.

Prefeito evangélico
Questionado sobre a polêmica à época da eleição de 2016 em torno de Lupércio querer conter o Carnaval por causa de sua religião, Hugo Guedes afirma não observar nenhuma barreira. “Não teve nenhum problema em relação ao prefeito ser evangélico. Ele acertou abrir o Carnaval do ano passado com as agremiações, mas não podemos dizer que está melhor ou pior, está bem igual”, completou.

Marcos Sales, presidente do Ceroula há 20 anos, afirma não observar diferença entre a administração dos dois prefeitos. “Renildo fez e Lupércio está fazendo um trabalho bom para a cultura da cidade e para o Carnaval. Não temos o que reclamar de nenhuma gestão”, elogiou. “Não podemos avaliar muito o primeiro ano de gestão, pois ele [Lupércio] pegou a Prefeitura com vários problemas. A partir de 2018, poderemos dar uma avaliada. Mas ano passado já foi um Carnaval diferente, foi mais participativo, vimos as agremiações nas ruas. O prefeito valorizou incentivando os blocos”.

O presidente do Ceroula cita os principais meios de arrecadação de fundos para os desfiles. “Fazemos festas fechadas e saídas ao longo do ano. Arrecadamos com venda de camisas, bebidas e comidas. Por ano, vendemos cerca de 600 camisas a R$ 250 cada, nossa principal fonte de renda. Na compra, o folião tem direito à uma camisa feminina e uma masculina, um chapéu de palha, bebidas como refrigerante, água, whisky, vodka, cachaça e cerveja, em esquema de open bar, e open food com comidas regionais como feijoada e macaxeira com charque” contou. “É pouco o que recebemos da Prefeitura. Não é suficiente para pagar todas as despesas, mas ajuda bastante”.

Em relação à atual situação do bloco, Marcos diz precisar pagar dívidas de anos anteriores. “Estamos atualmente em uma situação não tão confortável. Temos algumas dívidas de carnavais passados para pagar, mas estamos nos estabilizando”. Para os próximos anos, o presidente pretende manter a força do bloco. “Nossas expectativas são grandes para os próximos Carnavais. Temos um público fiel, graças a Deus”.

Planejamento
Júlio Silva Filho, presidente da Pitombeira dos Quatro Cantos, demonstra tranquilidade com a programação da troça para 2018. “Fizemos um planejamento para a festa deste ano e estamos tranquilos financeiramente, apenas esperando chegar o Carnaval para fazer o desfile oficial”. O dirigente, que está há 20 anos no cargo, fala sobre a preparação para a folia. “O que fazemos para sair no Carnaval e manter a Pitombeira viva o ano inteiro é um planejamento. Durante o ano fazemos apresentações e montamos um caixa que nos dá suporte financeiro”, explicou.

A fonte principal de renda da Pitombeira são as apresentações e alguns patrocinadores privados. O presidente cita os gastos da troça para 2018. “Este ano vamos usar quatro orquestras. É um custo bem elevado. Damos uma negociada, mas a média é essa. Uma orquestra boa para o Carnaval de Olinda não custa menos de R$ 6 mil. Vamos gastar ao todo cerca de R$ 80 mil”.

Sobre a satisfação em ver a troça na rua no Carnaval, Júlio afirma que o resultado final é manter as tradições culturais do Estado vivas. “As agremiações, incluindo a Pitombeira, têm CNPJ e são entidades sem fins lucrativos. A minha preocupação não é fazer Carnaval e sobrar dinheiro, é planejar para poder fazer a coisa dar certo e não ficar com o nome sujo no mercado e ficar devendo. Jamais alguém pode pensar em transformar uma agremiação dessa em uma empresa para gerar lucro”, falou.

“O objetivo social de todas é gerar a manutenção do patrimônio e da cultura do Estado. Quando você se propõe a fazer algo dessa natureza, você já sabe que não vai atrás de lucro. É gratificante saber que está dando continuidade às suas raízes culturais e não está deixando desaparecer ou cair no esquecimento”, finalizou.

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