Pescador de lagostas descobre naufrágio de 30 anos em Serrambi

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Uma embarcação de aproximadamente 50 metros de comprimento é a mais recente descoberta no fundo do mar perto da costa brasileira. O achado está 13 milhas náuticas a leste de Serrambi, no município de Ipojuca, no Grande Recife. A distância equivale a 24 quilômetros. Chegar lá, saindo da praia, é como ir do Marco Zero do Recife até pouco depois do centro de Abreu e Lima. Pela forma como está incorporada ao ambiente, já repleta de vida marinha, a nau pode ter afundado há cerca de 30 anos. Ao longo dos 187,5 quilômetros do litoral de Pernambuco, estima-se que tenham ocorrido 300 naufrágios desde o período colonial. Desses, mais de 110 já são catalogados, e 25, visitados por pesquisadores e aventureiros.

A localização do naufrágio em Serrambi ocorreu no fim do ano passado, por um pescador de lagostas de Maragogi, em Alagoas. Os rumores se espalharam no Litoral Sul de Pernambuco até chegarem aos ouvidos do mergulhador Rodrigo Lacerda, 42 anos, que é proprietário da empresa Abissal Mergulho e atua levando interessados em explorar outras embarcações naufragadas em pontos já mapeados. “Comecei a pesquisar e achei o pescador. Ele nos levou lá. Montamos uma expedição, partimos em busca de dados e coordenadas e achamos o naufrágio. Fizemos as primeiras fotos. Foi emocionante, para quem trabalha com isso há tanto tempo, achar um tesouro escondido já repleto de uma vida marinha incrível”, relata.

A expedição ocorreu na última terça-feira. Rodrigo, que mergulha desde 1993, acredita que o achado se trate de um batelão, tipo de embarcação de fundo chato mais usada para o transporte de cargas em águas pouco profundas, geralmente de rios, mas que também pode ser usada em mares. O convés dela está a 43 metros de profundidade. “Surpreendeu se tratar, provavelmente, de uma embarcação usada para o transporte de carga em rios. É estranho estar ali. Está muito longe da costa para uma embarcação para rios. É algo que terá que ser pesquisado. Conseguimos observar algumas coisas, como um timão, acredito que para abrir comportas. Não tem carga nenhuma, está cheio de areia. Ainda não conseguimos analisar os sedimentos, a areia que achamos. É algo ainda muito recente”, detalha Rodrigo, que prepara-se para comunicar o caso à Capitania dos Portos.

Não é a primeira vez que o mergulhador se depara com uma descoberta. Em janeiro de 1999, ele foi com amigos explorar o rebocador Marte, que havia sido afundado de maneira proposital um ano antes. Acabou perdendo uma de suas nadadeiras e pediu que o restante do grupo seguisse enquanto ele procurava seu equipamento. Foi quando, acidentalmente, encontrou argolas de uma embarcação desconhecida. Foram necessários três dias de mergulho para descobrir as primeiras informações sobre o achado, que já estava muito descaracterizado. Não à toa: acredita-se que esteja sob a água desde o ano 1700. Foi batizado como Galeão de Serrambi, em referência a um tipo de navio antigo com quatro mastros usado para o transporte de cargas de alto valor entre os séculos 16 e 17. Mas já há versões que indicam se tratar de outro tipo de embarcação.

Parque de naufrágios

Além de explorarem achados antigos, mergulhadores passaram a realizar naufrágios propositais com o intuito de fomentar o turismo de aventura. O projeto tem autorizações e parcerias da Marinha, do Governo do Estado e de acadêmicos. O Parque de Naufrágios Artificiais de Pernambuco já conta com 17 embarcações entre Ponta de Pedras (Goiana, ao norte) e Serrambi (ao sul).

As mais recentes foram Bellatrix, Phoenix e São José, rebocadores que estavam parados no Porto do Recife e foram para o fundo do mar em fevereiro de 2017. O projeto começou em 1998, com o afundamento do Marte, seguido, no ano seguinte, pelo do Gonçalo Coelho, navio usado pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial para o transporte de carros de guerra e que, na década de 80, vendido às Forças Armadas brasileiras, foi usado para abastecer Fernando de Noronha. Quando o Galeão de Serrambi foi encontrado, chegou-se a suspeitar que pudesse se tratar de um naufrágio antigo e muito cobiçado: o do Galeão Santa Rosa.

A embarcação portuguesa, lançada em 1715, serviu a Lisboa por 11 anos, primeiro em missões na Europa, até passar a escoltar as esquadras que partiam do reino em direção ao Brasil. Naufragou em setembro de 1726, repleta de baús com ouro que era levado da colônia de volta para Portugal. Estimativas mais realistas – distantes das que chegam a falar numa fortuna de US$ 1 bilhão depositada no fundo do mar – indicam que o equivalente a US$ 120 milhões tenham afundado junto com o navio, que partiu de Salvador. O acidente teria ocorrido no Litoral Sul de Pernambuco.

Nos últimos anos, diversos “caçadores de tesouros”, inclusive de empresas estrangeiras, manifestaram interesse em fazer buscas. Uma dificuldade é a escassez de registros sobre a embarcação, já que um incêndio em Lisboa, em 1755, destruiu muitos documentos. Além disso, diz-se que o governo português tentou esconder o caso para, entre outros motivos, não denunciar a rota que suas esquadras usavam anualmente ao cruzar o Atlântico até o Brasil. Aquele foi o período em que a colônia mais extraiu ouro.

O Galeão Santa Rosa teria zarpado com três toneladas do metal a bordo, além de moedas, diamantes e esmeraldas. Uma versão romantizada de como a tripulação caiu em desgraça é a de que um comandante, após discutir com o capitão Bartolomeu Freire Araújo, teria incendiado o paiol, que armazenava barris de pólvora para abastecer 70 canhões.

As versões sobre a localização do navio e até sobre se já foi ou não encontrado são muitas. Arqueólogo subaquático e professor do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Carlos Rios diz que, na verdade, a embarcação era uma fragata e naufragou na altura do Porto de Suape.

“Até onde sei, ela foi localizada, mas nunca foi explorada. Em 1998, foi feita uma pesquisa para localizá-la. Mas é preciso ir além da curiosidade pelo que estava sendo transportado. Há muitos tesouros arqueológicos, canhões. Só o esqueleto já seria de grande valia para estudar as técnicas de construção daquela época. Se eu achasse um caravelão, por exemplo, que navegou muito pelas nossas águas no século 17, mas nunca teve um exemplar achado enterrado na lama, já seria como ganhar na loteria”, declara o especialista, acrescentando que, no caso da descoberta feita, nessa semana, em Serrambi, ainda é preciso investigar muito.

“Pela posição da proa é que se diz para onde estava indo, se adentrando o mar ou voltando. Existem muitos fatores que levam a naufrágios, como o humano, o meteorológico, o cartográfico, o fortuito”, elenca. Bens de naufrágios devem ser submetidos ao controle da União, e não de quem o encontrar, segundo a legislação. O achado de uma embarcação afundada deve ser comunicado à Marinha, que, se necessário, informa a outros órgãos, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em nota, a Capitania dos Portos de Pernambuco esclareceu que as medidas a serem adotadas em casos como esse estão previstas nas Normas da Autoridade Marítima para pesquisa, exploração, remoção e demolição de coisas e bens afundados, submersos, encalhados e perdidos da Diretoria de Portos e Costas.

O documento versa que aquele que fizer o achado não pode “alterar a situação das referidas coisas ou bens” e deve entregá-los à Marinha. A instituição disse ainda que, até sexta-feira, não havia sido comunicada oficialmente sobre o naufrágio encontrado perto de Serrambi. Já o Iphan informou que, conforme a Portaria Interministerial n° 69, de 23 de janeiro de 1989, a Marinha deve ouvir o Ministério da Cultura – ao qual o instituto está ligado – “nos casos de autorização para pesquisas de exploração científica de bens submersos”. Para os estudos, os interessados devem protocolar um projeto de pesquisa arqueológica junto ao Iphan.

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