Moradores da comunidade do Coqueiral interditaram o trânsito da Via Mangue, Zona Sul do Recife, no fim da tarde desta quarta-feira (21), em protesto pedindo a instalação de um semáforo devido aos acidentes que têm acontecido no local. Uma mulher de 55 anos, identificada por eles como dona Justina, morreu atropelada na noite da última segunda-feira (19). Outros dois acidentes fatais recentes, envolvendo uma adolescente e um menino, também são apontados pelo grupo.

Aproximadamente 150 pessoas participaram da manifestação, a maioria mulheres e crianças. O ato começou por volta das 16h30, próximo à ponte para pedestres localizada na avenida Dom João VI, quase em frente ao colégio GGE, no sentido de quem vem de Setúbal para a avenida Antonio Falcão. Às 17h, policiais militares do 19º Batalhão chegaram ao local e teriam agido com truculência para forçar os manifestantes a desocuparem a via segundo moradores. A reportagem da Folha de Pernambucocontabilizou cinco viaturas e cerca de 20 policiais presentes no local, mas eles se negaram a comentar as acusações.

“Jogaram spray de pimenta e bateram até em mulheres e meninos menores de idade”, denunciou a empregada doméstica Rosângela Cavalcanti Silva, que disse ter sido empurrada a golpes de cassetete e ameaçada de prisão. “O protesto foi pacífico, ninguém botou fogo em pneu nem agrediu ninguém, mas eles não respeitam nosso direito de reivindicar”, completou.

Segundo relatos, uma das presentes, Elisângela Francisca, mãe de quatro filhos pequenos e recém-parida, passou mal por causa do gás tóxico de pimenta. “Ligamos para o Samu e eles se negaram a vir socorrer, disseram que a PM deveria levar. Já os policiais ficaram só olhando e dizendo que não tinham obrigação de fazer nada, e isso porque a causa da situação foi a violência deles mesmos. No fim, uma moça que estava retida por conta da paralisação da via se solidarizou, passou o bloqueio e levou Elisângela para a UPA”, relatou Rosângela Cavalcanti.

Reinvidicação antiga

De acordo com a líder comunitária da comunidade Coqueiral, Vanda Maria Ramos, há mais de oito anos as pessoas da região pleiteiam a instalação de um semáforo, mas a prefeitura se nega, alegando que o local é uma via expressa e um dos acessos da Via Mangue. “Fizeram um paliativo, colocaram só uma lombada que não funciona”, apontou. “Antes mesmo desse acidente ter acontecido, já tinha marcado uma conversa com o secretário de Mobilidade e Controle Urbano, João Braga, para tratar desse assunto. Esperamos que isso seja resolvido, se não, vai haver novas vítimas”, alertou.

Além do Coqueiral, onde moram cerca de 1.800 pessoas, a passagem estreita sobre o canal da avenida Dom João VI é utilizada por moradores das comunidades Sonho Meu, Laje e até do Residencial Boa Viagem, além de passantes que vêm do metrô (Estação Shopping). “Eu uso esse caminho para ir ao supermercado, à praia, ao trabalho. Mas pior é o caso das crianças, pois a prefeitura instalou a escola delas do outro lado da via e, por isso, elas são obrigadas a se arriscar todo dia, na ida e na volta para casa”, criticou o eletricista Flávio Geraldo. “É muito perigoso. Os carros vêm em alta velocidade e chegam a acelerar quando veem um pedestre”, destacou.

Às 18h30, os manifestantes resolveram desocupar a pista, de forma pacífica. Antes, rezaram um Pai Nosso em homenagem às vítimas e realizaram um ato simbólico remetendo aos atropelamentos.

CTTU envia nota oficial

Por volta das 19h, a CTTU se pronunciou sobre o caso através de uma nota oficial: “A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) informa que mantém constante manutenção/requalificação da sinalização viária na cidade, inclusive no bairro de Boa Viagem. Dessa forma, a Avenida Dom João VI será inserida no cronograma da equipe técnica para que seja realizada uma vistoria na sinalização viária do local para garantir a segurança viária. Entretanto, é importante destacar as responsabilidades dos condutores que devem seguir as leis do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e respeitar a velocidade permitida nas vias a fim de evitar acidentes, uma vez que a via em questão possui placa de sinalização vertical que determina a velocidade regulamentada (60 km/h), além de equipamento de fiscalização eletrônica para velocidade. Em relação à acidentes com vítimas, é importante destacar que as circunstâncias dos fatos só podem ser determinadas pelo Instituto de Criminalística, após a conclusão da perícia técnica”.